História do uso popular da Maconha no Brasil

As caravelas, com suas velas e cordames feitos de cânhamo, trouxeram não só os portugueses mas também os escravos, que escondiam, em seus cabelos, itens e vestes, sementes de “makana”. Vendida legalmente em boticários no Rio antigo, a maconha — que já foi cultivada até pelo Império — passou de planta com fim cultural, industrial, medicinal e religioso a  uma droga proibida, só para criminalizar negros e pobres.

A maconha e o racismo

Não tardou muito para a maconha ser associada com negros e a África, sendo considerada por José Rodrigues Dória, um médico e político sergipano, como a “vingança do negro sobre o branco que o escravizou”, devido a sua capacidade de afetar também os brancos. A favor desse tipo de argumentação, Rodrigues Dória põe os negros como uma raça “selvagem e ignorante” e os brancos como “mais adiantados em civilização”.

Na foto,o retrato de uma “assembleia” ou “diamba”,assim chamadas as reuniões feitas pelos diambistas para o consumo da maconha,tirada na década de 1940.

Roda para fumar a maconha, chamada por eles de diamba
Roda para fumar a maconha, chamada por eles de diamba

O interesse do governo no uso da erva cannabis sativa pela população brasileira começou a partir da década de 1910, mas foi em 1917 que houve os primeiros relatos científicos do uso da maconha, também chamada de diamba, no interior brasileiro. Por mais que estivesse presente na cultura brasileira desde o século XVIII, quando também tentaram reprimir seu uso, os cientistas, incentivados pelos ideais moralistas e também pela postura de combate às drogas da Liga das Nações, procuravam razões para abolir a droga e combater o seu uso. Foi durante essa pesquisa que os vários cientistas se depararam com os “clubes dos diambistas”, assim chamados pois se organizavam em roda para fumar a maconha, chamada por eles de diamba.

Os diambistas foram perseguidos e a maconha tratada com uma ênfase diferente, mais rígida, do combate de outras drogas pelo governo Vargas.

Maconha no nordeste

No Recife, o beco do sarapatel era o ponto de encontro dos fumadores da erva que entorpece nos anos 40. O Diario de Pernambuco mapeou os locais onde estava crescendo o consumo de maconha, que começava a ganhar espaço da cocaína pela facilidade de compra. Os “viciados” flagrados eram encaminhados pela polícia para o hospital de doenças nervosas para “as devidas observações”.

Na verdade, o beco do sarapatel era o apelido da Travessa do Carmo, no bairro de São José, segundo o jornal um lugar frequentado por “vagabundos e meretrizes da pior espécie”. A reportagem “Maconha, a herva que entorpece” figurou na capa do Diario em 3 de abril de 1936, com direito a foto de homens e mulheres ao longo da via suspeita, locais onde ocorriam “cenas de sangue, desordem e suicídios”.

Os maconheiros

Em 1951 todos os estudos que demonstravam aversão à maconha foram reunidos em um compêndio intitulado “Maconha – Coletânea de Trabalhos Brasileiros”, publicado pelo Serviço Nacional de Educação Sanitária. Foi a partir dessa coletânea que surgiu o estereótipo do “maconheiro”, como um homem de aspecto sujo e enfatuado pela “loucura canábica”, um comportamento violento ocasionado pelo uso da maconha.

Esse tipo de pensamento associado também se estendeu para os diambistas, e o “maconheiro” do século XX era reconhecido como o pobre nortista sertanejo, que devido aos seus “caracteres étnicos”, buscava na maconha um alívio para a dureza da vida, ignorando completamente a manifestação de sabedoria popular presente nas rodas de diambistas. Por mais que esse estereótipo acabe vingando atualmente, Dr. Garcia Moreno citou eles como sendo uma “pequena enciclopédia popular” e afirmando que eles “fumam a planta e sabem mil coisas”. De fato, um aspecto distante da concepção brasileira moderna sobre o que fuma maconha e, incrivelmente, uma faceta ilegal da cultura popular brasileira.

Fontes:

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