Prostituição e Covid-19, pontos de rua despencam

Contra a exploração sexual

Os serviços de anúncios classificados para adultos têm contribuído para diminuir a exploração de mulheres nos últimos anos. A exploração acontece porque a maioria são jovens e vulneráveis e muitas pessoas aproveitam-se. As meninas tem que se organizar e posicionar para que não estejam mais submetidas à exploração e que possam ter na sua profissão a subsistência garantida, sem a interferência de terceiros.

No passado já vimos num dos maiores e mais populosos bairros de Recife, que durante a noite, é conhecido por ser ponto de encontro para garotas de programa, uma quadrilha que cobrava pedágio de profissionais para ficarem nas esquinas mais solicitadas. Na Grande Florianópolis, quadrilha cobrava diária de trans e garotas de programa pelo mesmo motivo; ficar na rua.

Pontos de prostituição na rua despencam

Segundo uma profissional atuante na região do Plano Piloto, no DF, as mulheres que faturavam até R$ 5 mil trabalhando nas ruas viram o rendimento cair até menos de R$ 1 mil.  Não há muito para onde fugir. Nem nas boates mais sofisticadas o movimento é bom. A solução mais rápida e partir para as redes sociais e anúncios de classificados para adultos.

De acordo com uma das garotas, quase não existe mais movimento de clientes nas ruas procurando por programas de sexo.

Com certeza, os pontos de rua que já eram poucos, ainda ficaram mais prejudicados com a Covid-19. Os valores cobrados despencaram e a procura também.

Muitas cidades ficaram desertas desde o mês de abril por decretos municipais que proíbem o funcionamento de parte do comércio da cidade. A medida, que é uma tentativa de evitar as aglomerações e a proliferação da Covid-19, acabou com a oferta de serviços na rua e afastou os clientes fazendo com que os locais antigamente conhecidos como ponto de encontro, ficassem desertos.

De acordo com a Aprosmig (Associação das Prostitutas de Minas Gerais), cerca de três mil profissionais foram impactadas pela Covid-19 em Belo Horizonte. Segundo a associação, muitas mulheres que sobreviviam nas ruas da cidade e moravam nos hotéis na região da Guaicurus, voltaram para suas casa na Grande BH e até no interior.

“Tem conta chegando, né? E muitas escondem a profissional para as famílias. Como explicar agora o porquê da falta de dinheiro?

A Aprosmig tem feito campanha de arrecadação de cestas básicas e produtos de higiene como sabão e álcool em gel. “A gente fala para elas ficarem em casa. Para se protegerem. É um período difícil. Eu diria até caótico”, disse a presidente da entidade.

Pandemia afeta, sobretudo, população trans, já que atividade é responsável pela subsistência de 90% dela

Com grande parte do Brasil em quarentena, evitando as ruas e o contato social para barrar o avanço da Covid-19, as profissionais temem o quanto isso pode impactar ainda mais em sua atividade. Assim como diversos outros profissionais de diferentes áreas, elas não podem parar completamente.

Para muitas, quarentena não existe. Nas ruas o que fica é a queda no número de clientes e maior exposição ao vírus.

Luísa (nome fictício) Trans, 39 anos

Paralisei completamente a atividade nas ruas já tem uma semana. Tenho 39 anos, estou entrando no grupo de risco. Só que existe uma quantidade enorme de meninas trabalhando na noite porque precisam. O clima é de temor porque podem ser infectadas a qualquer hora

Se entrar 20 ou 30 reais eu tenho que aceitar e voltar para casa. Preciso comer. Compro uma bandeja de frango temperada, alguns legumes, e sobrevivo

Luísa é uma mulher trans de 39 anos que foi expulsa de casa aos 23 por conta do preconceito dos pais. Fazer programas foi a saída encontrada para se manter, mas não por mera opção.

“Terei que aceitar se entrar 20 ou 30 reais e voltar para casa, preciso comer. Compro uma bandeja de frango temperada, alguns legumes, e sobrevivo”.

Ciente das orientações de prevenção à Covid-19, ela diminuiu os dias de trabalho de quatro para dois na semana. Em sua bolsa, garante que leva sempre álcool em gel e lenços umedecidos.

“Já trabalhei em outras profissões, mas sempre sofri muito preconceito e isso abala muito nossa cabeça. Sendo trans e prostituta, é muito difícil ser respeitada”, diz ao #Colabora enquanto voltava de mais uma tentativa de conseguir mudar de vida. Na segunda, 23, foi à capital deixar seu currículo em agências de emprego e lojas, mas se deparou com todas as portas fechadas. Além do que recebe na noite, ganha R$ 89 do Bolsa Família.

Keila Simpson, 55 anos

Keila Simpson parou com a atividade nas ruas, e agora, luta para garantir que outras mulheres prostitutas possam ter acesso à informação e à prevenção necessária (Foto: https://projetocolabora.com.br/)
Keila Simpson parou com a atividade nas ruas, e agora, luta para garantir que outras mulheres prostitutas possam ter acesso à informação e à prevenção necessária (Foto: https://projetocolabora.com.br/)

Paralisei completamente a atividade nas ruas já tem uma semana. Tenho 55 anos, estou entrando no grupo de risco. Só que existe uma quantidade enorme de meninas trabalhando na noite porque precisam. O clima é de temor porque podem ser infectadas a qualquer hora”, alerta. Vale destacar que não há evidência científica de que a doença seja transmitida por contato sexual.

Em Salvador, Keila Simpson, de 55 anos, parou com a atividade nas ruas, e agora coordena o Espaço de Sociabilidade e Convivência do CPDD (Centro de Promoção e Defesa dos Direitos da População LGBT)

Luísa e Keila fazem parte dos 90% da população trans que tem a prostituição como fonte de renda.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.